Dilma em feira do livro em Buenos Aires

Dilma defende Lula livre na Feira do Livro de Buenos Aires.

Dilma Rousseff defende Lula livre na Feira do Livro de Buenos Aires.

O livro “La verdad vencerá” foi apresentado por Dilma Rousseff, que disse: “Lula deve estar livre porque é inocente e estão cometendo um crime contra ele”. A presidenta esteve acompanhada por personalidades como Ernesto Samper, Cuauhtemoc Cárdenas, Estela de Carlotto, Adolfo Pérez Esquivel, Pablo Gentili, Vitoria Donda e Nicolás Trotta, entre outros dirigentes sociais e políticos

A definição foi de Dilma Rousseff, presidenta do Brasil durante um mandato inteiro, eleita outra vez em 2014 e derrubada em 2016: “usaram a lei para violar a lei”. Outra mais: “com Lula, estão usando a Justiça do inimigo”. É como funciona o processo de “lawfare”, a guerra que usa instrumentos supostamente jurídicos. Nicolás Trotta, reitor da UMET (Universidade Metropolitana para a Educação e o Trabalho), coordenador do ato de solidariedade com Lula, foi quem puxou o coro que se repete em todo o Brasil desde o dia 7 de abril: “Lula”, gritava Trotta, e as pessoas respondiam: “Livre!!”. E assim, várias vezes. Lula. Livre. Lula. Livre. Lula. Livre.

Esse foi o tom dominante da apresentação, na Sala Jorge Luis Borges da Feira do Livro de Buenos Aires, da obra “La verdad vencerá”, o livro de conversas com Lula que foi publicado pelo diário Página/12, Editora Octubre, Editora Boitempo e pelo Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO), e que está à venda desde domingo (29/4) nas bancas e livrarias da capital argentina.

A apresentação, na verdade, foi concebida como um ato para exigir a liberdade de Lula, como parte de uma jornada que seguiria com outro ato, na Confederação Geral do Trabalho (CGT, uma das centrais sindicais argentinas) e um recital de música e poemas no auditório Caras e Caretas, na UMET.

Última oradora da noite, Dilma Rousseff fechou o ato dizendo que pensava que o portuñol era uma língua dos povos da América Latina e se jactou por usá-lo muito bem – embora tenha dito essa parte em português.

“Imagino, do fundo do coração, o que deve ter sido a ousadia das Mães e das Avós que foram marchar na Praça de Maio, para reclamar pelos ameaçados e torturados”, disse Dilma, se dirigindo à líder história das Abuelas, Estela de Carlotto.

“Sei perfeitamente distinguir um golpe militar de um golpe judicial, parlamentar e midiático”, afirmou Rousseff, em outra parte do seu discurso. “Sei o que é a tortura e a morte. Mas o golpe parlamentar também sustenta interesses econômicos, localiza inimigos e os ataca enquanto reduz de forma permanente a potência das instituições democráticas. O impeachment foi travestido de legalidade. Como se fosse colocado um biombo que ocultava o carácter ilegal do processo”.

“O ódio tem que ser destilado, e deve ser definido como um inimigo interno”, explicou Dilma, sobre a forma com que se criou o clima do golpe de 2016 no Brasil.

“Por trás de tudo está o grande monstro da escravidão, que gera o ódio contra os negros que puderam entrar nas universidades (pelas políticas de inclusão dos governos do PT). Talvez despertaram outros monstros, mas em algumas cabeças de grande poder econômico”, agregou.

Sobre o contexto regional, indicou que “a integração buscou o desenvolvimento econômico, a distribuição de renda e o crescimento das oportunidades para todos de uma forma democrática e com soluções pacíficas”. Contrapôs essas políticas com a ruptura atual da integração e a tentativa de acabar com a autoafirmação, com a autoestima regional e com a própria emancipação. “Agora estão destruindo a Unasul (União Sul-Americana de Nações), são uns conservadores atrasados, porque conservadores de outros lugares do mundo mantêm as estruturas de integração”. Assim, como Cuauhtemoc Cárdenas, Dilma disse que “(essas medidas anti integração) são parte de uma linha que marca a história da América Latina.

A mais aplaudida, junto com Dilma, foi Estela de Carlotto, que fez o resto da mesa se levantar para homenageá-la durante alguns minutos.

“É uma profunda emoção dar as boas vindas a esta querida amiga, a esta grande mulher”, disse a presidenta das Avós de Praça de Maio. “Tocar suas mãos permite compartilhar forças entre mulheres, que não queremos deixar este mundo sem fazer as coisas que sirvam para que nossos povos sejam mais fortes e soberanos. Assim como Lula, que escutamos tantas vezes… nos abriu os braços em épocas muito perigosas. Recebemos um grande carinho”, declarou.

“É preciso continuar sonhando com a pátria grande”, continuou Carlotto: “não se pode afrouxar a luta, cruzar os braços, porque estes exemplos, como os de Lula e Dilma, e outros tantos, têm que fazer com que nós percamos o medo”.

Trotta apresentou Dilma como “a presidenta legítima do Brasil”, saudou o ex-governador da capital mexicana Cuauhtemoc Cárdenas e se dirigiu ao ex-presidente colombiano Ernesto Samper, que também foi o último secretário geral da Unasul: “Ernesto, como a Unasul tem saudades de você”. Hoje, a entidade se encontra acéfala e esvaziada pela saída de seis países: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Paraguai e Peru.

Os oradores foram se revezando no cenário, com alguns minutos para cada um. Víctor Santa María, presidente da Fundação Outubro, reivindicou “a causa, o amor e a vontade de ver Lula livre, porque essa é a vontade de todos os trabalhadores. Quando tive a sorte de conhecer o companheiro Lula nada mais e nada menos que na inauguração da primeira universidade de gestão sindical, a UMET, escutei que Lula pedia que os trabalhadores do Brasil também tivessem essa oportunidade”, contou.

“Este esforço não tem a ver só com a liberdade de Lula, mas com a liberdade dos nossos sonhos e nossas ideias, porque os poderosos não aceitam que um trabalhador seja presidente de uma potência mundial e o faça com dignidade”, exclamou Santa María. “Os poderosos da Argentina tampouco aceitam, e em nenhum lugar do mundo, porque não suportam a ideia da dignidade do trabalho. Hoje, não há um Feliz Dia do Trabalhador na Argentina, porque perdemos direitos, aumentaram as tarifas (de serviços básicos, como água, luz, gás, etc), o país retrocede, e por isso a causa de Lula livre é a causa dos trabalhadores e do povo argentino. Me sinto tão honrado agora como no dia que inauguramos esta universidade (UMET). Pudemos fazê-lo não porque fomos mais eficientes, e sim porque a Argentina desse tempo era uma Argentina de direitos, de distribuição da riqueza, de sonhos, de ideais”.

Santa María concluiu sua fala reafirmando o desejo de todas as pessoas e instituições presentes de que “um dia tenhamos, outra vez, uma região marcada por governos nacionais, populares e democráticos”.

“Compartilhar o pão, que alimenta o corpo e o espírito, mas também a liberdade”, pediu, em sua intervenção o Prêmio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel. Olho Dilma e recordou que foi ao Senado brasileiro em 2016 e disse: “estão dando um golpe de Estado contra a presidenta Dilma Rousseff”. Contou que agora, em sua última viagem ao Brasil, esteve numa favela, para uma homenagem à vereadora assassinada Marielle Franco. Também lembrou “deste amigo da alma, de tantos anos, Leonardo Boff, e junto com ele tentamos ver a Lula, e não nos deixaram entrar”.

“Lula é um preso político”, disse Pérez Esquivel. “O acusam de um delito que não cometeu. Prestemos atenção ao contexto regional. Fizeram experiências piloto em Honduras, contra Manuel Zelaya, e depois no Paraguai, contra Fernado Lugo. E logo veio o golpe no Brasil”.

Aproveitou a presença de Ernesto Samper para dizer que “querem liquidar a Unasul porque buscam impedir a unidade continental”.

Em sua intervenção, Samper disse que estava preocupado por saber que Lula estava impedido de receber visitas e que está preso em uma solitária. “Eles têm medo de um Nobel da Paz visitando um presidente porque há uma perseguição às forças progressistas da América Latina”.

“Por trás de casos como a crise da Nicarágua, da Bolívia ou da derrota do plebiscito pela paz na Colômbia há grupos econômicos, juízes e promotores transformados em novos atores políticos, embora não representem ninguém politicamente, mas que estão articulados com a `justiça midiática´”, foi a reflexão de Samper.

“Negaram a Lula seus mais elementares direitos, como o da presunção de inocência”, disse Samper. “Mas Lula já estava condenado pela televisão e pelos diários de direita, porque havia sido julgado pela manhã e condenado pela noite. Tampouco teve o direito de contestar as provas. “E lhe foi tirado até mesmo o direito à intimidade, dentro de uma `justiça de mercado´, que os Estados Unidos nos venderam como o melhor sistema, onde as provas são negociadas para lá e para cá”.

Segundo Samper, a importância do caso Lula é que “que há todo um movimento que pretende restaurar a diminuição do poder dos salários e atentar contra a renda dos trabalhadores, com aumentos de preços e tarifas, que sobem de elevador”.

“Para as mulheres do mundo, que acreditamos na igualdade, Dilma é um dos exemplos a seguir”, disse a deputada Victoria Donda, em sua fala. A presidenta do Brasil devolveu a referência a ela em seu discurso, lembrando que “Victoria nasceu na Escola de Mecânica (ESMA, centro de tortura da ditadura argentina) e no Brasil sabemos o que isso significa”.

Gustavo Carrara, um sacerdote da diocese portenha, usou um tom mais calmo para dizer o que parecia uma oração. Ou, já que cada um sempre pode escolher sua variante, uma reza laica, que cairia bem para Pepe Mujica, outro grande amigo de Lula.

“Os pobres não só dão o que pensar, mas também pensam. Os mais pobres lutam para viver melhor. Lula é um pobre que chegou a ser presidente, para que todos vivam melhor”.

“Usamos bastão porque nunca nos ajoelhamos”, disse Estela Carlotto, em sintonia com o padre. “Não devemos nos ajoelhar nunca. Se sente hoje esse amor por Lula. É um alimento para a alma. Tenhamos fé em nós e no irmão que nos acompanha. Sintamos a união na luta e defendamos esta consigna que nos une: Lula livre”.

O ex-governador da capital mexicana Cuauhtemoc Cárdenas disse que o golpe contra Dilma “foi o golpe de uma maioria legislativa corrupta, e se prolonga com a prisão arbitrária daquele que poderia reverter o projeto político que se instalou com esse golpe, cujo objetivo é que a luta pela soberania, pelos direitos das pessoas, pelo progresso integrado, pelo fim da exploração, seja calada”. Como era seu aniversário (de número 84), recebeu como presente um parabéns cantado por todos os demais presentes, e inclusive com um bolo que a organização tinha guardado para a surpresa.

Ivanna Jinkings, da Editora Boitempo, responsável por lançar o livro de Lula no Brasil, conseguiu a aprovação do ex-presidente para gravá-lo em tempo recorde, e contou que “a luta em favor de Lula é um favor da esquerda, da democracia, de todos nós. Uma espécie de `a história me absolverá´, em versão atualizada para estes novos tempos”.

“Estes são tempos de Lula livre, de Marielle vive e dos trabalhadores”, disse Pablo Gentili, secretário executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO). “Estamos recebendo aqui a única presidenta do Brasil, porque seu mandato termina no dia 31 de dezembro, e elegeremos de novo a Lula da Silva como presidente”, afirmou. “Um golpe, na política, é uma sucessão de impactos, um processo que começou assim que Dilma Rousseff conquistou seu segundo mandato, e que se seguiu até a acusação e a vergonhosa sessão na Câmara dos Deputados, e que levou a um governo pautado pela recuperação de riquezas pelos ricos numa das sociedades mais desiguais do planeta”.

Gentili destacou que “ainda existe um Brasil colonial, que pretende manter milhões de Lulas em cativeiro”. Disse que um golpe está destinado “sobretudo, a silenciar, como o que vivemos dramaticamente na Argentina, com 30 mil companheiros e companheiras que desapareceram”.

Entretanto, afirmou que os golpes “sempre pretendem coisas, mas quase nunca as conseguem”, quando se trata de silenciar, por exemplo, a Lula. Ademais, também citou a Rede Globo como parte do golpe e sua tentativa de silêncio.

“Para recuperar o poder para o povo é fundamental haver uma unidade das forças progressistas no Brasil, e também nas eleições da Argentina, em 2019, no México este ano, e em vários outros países”, reforçou Gentili, que também falou sobre aprender com os erros. “Por exemplo, o que fizemos nesta mesa, com pouquíssimas mulheres, é um erro, e devemos avançar em igualdade e em paridade, não ficar no argumento de que estas são de ouro, porque todos somos de ouro”.

“Os poderosos devem aprender que quando não nos deixam sonhar nós não os deixaremos dormir”, concluiu o secretário do CLACOS.

Depois de saudar o diário Página/12 e a UMET, o deputado nacional Hugo Yasky, secretário-geral da Central de Trabalhadores Argentinos (CTA, outra das centrais sindicais do país), disse que “não há nenhum lugar mais importante neste primeiro de maio do que o que estamos vivendo agora”.

Yasky afirmou que “Lula representa o símbolo de uma América Latina que hoje vive sob a ditadura política do Brasil e a ditadura econômica que domina o resto do continente”. Um operário que chegou a ser Presidente e tirou milhões e milhões de brasileiros da pobreza, e agora está preso. “Lula livre! Devemos lutar para que a América Latina esteja outra vez de pé”, afirmou ele, que também é dirigente da Confederação de Trabalhadores da Educação.

Gustavo Menéndez, presidente do Partido Justicialista (peronismo) da Província de Buenos Aires e intendente da região de Merlo, confessou que “me custou muito estar aqui porque um temporal deixou muitos dos meus conterrâneos sem nada, mas sei que eles vão me entender”. Disse que “Lula deixou de ser um homem para se tornar um líder político, e depois presidente. Hoje, o líder e presidente deixou de ser tudo o que foi antes, para se transformar em um símbolo”.

“Sabemos que as coisas ruins que acontecem neste mundo são causadas pelo dinheiro, como diz nosso querido Papa Francisco”, refletiu Menéndez. “Para ganhar dinheiro, alguns são capazes de traficar armas, arrasar bosques, e submeter pessoas à escravidão. Lula também está preso por causa desses que sempre saem ganhando, porque é culpado de tirar 40 milhões da pobreza. Ou estamos com ele ou estamos do lado dos que sempre fazem com que os povos sofram”.

O senador Fernando Pino Solanas qualificou o livro (e o ato) como uma “nobre e necessária iniciativa”. Seguiu assim: “Lula é a América Latina. Excelente esta convocatória continental. Lula iniciou a revolução na América Latina, tirando dezenas de milhões de irmãos brasileiros da pobreza. O inimigo teme a ideia da unificação, e a da revolução em paz. Os golpes militares foram substituídos pelos golpes brandos, com a Justiça e os grandes grupos midiáticos caluniando o povo e seus dirigentes. Esta é história conhecida. A Argentina viveu isso em 1955, com Perón. Mas não devemos esmorecer, companheiros. Estas violentas reformas trabalhistas e previdenciárias, similares na Argentina e no Brasil, pelo seu conteúdo antipopular, nós já conhecemos e vão ficar para trás, porque as pessoas não estão dispostas a se deixar levar. Dilma, não tenho dúvidas de que a solidariedade continental, deixando o passado para trás, vai tirar Lula da prisão, para que ele possa reconstruir a grande pátria latino-americana”.

Outro orador foi Felipe Solá, deputado pela Frente Renovadora argentina. “O estado de ânimo mudou desde o dia em que prenderam Lula”, disse. “Se Lula caminha pelas ruas argentinas não receberá outra coisa senão afeto, um enorme afeto, porque há consciência de que é um líder extraordinário. Quando Dilma foi tirada do governo, o Brasil havia chegado a ser a sexta maior economia do mundo, graças a um governo inusitadamente forte e popular. Isso irritou o grande capital brasileiro. Inventaram uma armadilha contra Dilma, calúnias que o sistema judicial brasileiro lamentavelmente aceitou, como aconteceu na Argentina com Perón. Mas a calúnia não superará a verdade, nem a consciência, nem o afeto. Os povos vão reagir”.

Carol Proner, que foi uma das articuladoras do grupo de juristas que acompanharam Lula desde o primeiro momento, comentou como a prisão do ex-presidente “tem similitudes com a Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Márquez”. Disse que “Lula foi condenado por fazer crescer e distribuir renda, por ampliar direitos, por reduzir a pobreza extrema. Foi um subversivo do liberalismo sem democracia. Contra ele e contra Dilma, os golpistas armaram um modelo sofisticado de golpe brando, com prisões coercitivas, provas ilícitas e uma justiça sem provas”.

Castigam os governos do PT porque “retiraram o Brasil do mapa da fome”, disse o ex-senador paulista e ex-ministro de Dilma, Aloysio Mercadante. “Temer quer fazer um ajuste de 24 anos seguidos”, contou. “Nós demos acesso às universidades a mais de 5 milhões, e especialmente para os mais pobres, multiplicando o número de pessoas que foram as primeiras em suas famílias a ter um diploma universitário”.

Fonte: Agência Carta Maior

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