Gleisi Hoffmann

Entrevista de Gleisi Hoffmann para o jornal argentino Página 12.

Em entrevista, Gleisi Hoffmann denuncia perseguição política para o jornal argentino Página 12.

– Como está Lula?

– Emocionalmente está tudo bem, Lula é uma fortaleza, está ciente da situação política e muito zangado com a arbitrariedade do juiz Moro que o condenou sem provas, Lula é um preso político. Está em uma sala com uma cama de solteiro, sem encosto, uma mesa e três cadeiras, no dia em que o vi vestindo uma camisa e calças de ginástica, sandálias, ele nos disse que fica andando de um lado para o outro para manter a forma, que faz flexões em duas pilhas de livros para manter os braços fortes, pediu uma esteira para ginástica, mas não foi autorizado até agora. Ele nos recebeu com seu modo generoso de ser, pediu desculpas porque não havia lugar para nós nos sentarmos, então conversamos de pé. Nós transmitimos nossa solidariedade, informamos do nosso trabalho, da imensa repercussão que sua prisão está tendo. O que realmente nos preocupa é o isolamento dele, que a visita de personalidades como o ganhador do Prêmio Nobel, Adolfo Pérez Esquivel e seus médicos sejam proibidos de entrar. Ele é um homem de 72 anos que sofreu de câncer. Acreditamos que há uma estratégia para vencê-lo emocionalmente, mas isso é difícil de conseguir, ele já foi preso durante a ditadura, viveu situações difíceis e sempre as superou.

-Que impacto tem a campanha do PT no exterior?

-Primeiro, deve-se dizer que no Brasil há uma situação midiática muito preocupante. O golpe contra Dilma e o julgamento contra Lula foram contados de maneira tendenciosa pela mídia, primeiro pela Globo, responsável por uma campanha de ódio desenfreado. Por outro lado, a mídia estrangeira não é gerenciada com esse prisma tendencioso. A situação de Lula está causando preocupação internacional, se trata de um líder global preso, por isso estamos fazendo visitas ao exterior para dizer o que acontece e reforçar a solidariedade com nossa luta, a presidente Dilma esteve na Europa e nos Estados Unidos, onde se encontrou com o Professor Angela Davis em Berkeley, um lutador anti-racista de renome, e terça-feira 01 de maio (manhã) vai para Buenos Aires coincidindo com o Dia do Trabalho e apresentará um livro, e outras atividades. Outros colegas foram para Portugal. Temos que aprofundar os laços com a ofensiva de direita que vai além do Brasil, a proibição de nosso maior líder popular através de medidas judiciais se repete com ações hostis às forças progressistas latino-americanas em um ano que terá várias eleições.

– Haverá eleições no Brasil?

-Há todos os tipos de rumores, alguns duvidam que ela acontecerá, há incerteza. Estamos preocupados com a possibilidade de eleições, mas elas não são livres e democráticas, pois Lula está proibido, e a frente dos partidos que formamos em defesa da democracia expressa essa preocupação.

-Lula será o candidato?

-Lula é o nome do PT para as eleições, não há Plano B, nossos adversários querem a todo custo um plano B, mas isso não vai acontecer, ele será o candidato, mesmo se não recuperar a liberdade e permanecer na prisão. A plataforma que estaremos transportando em outubro já está em andamento, com o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad como coordenador. Já fizemos uma consulta popular sobre as principais propostas da plataforma que foi chamada O Brasil que o Povo Quer, viajamos por todo o país para coletar propostas.

-Lula vai supervisionar o programa da cadeia?

-Claro que sim, ele estava trabalhando no programa antes de ser preso, ele estava conversando com representantes de diferentes áreas, ele formou um grupo permanente de economistas com quem se reuniu para avaliar a situação do país, depois de 7 de abril (dia de detenção) esse grupo continuou com suas reuniões.

A prisão não parece ter afetado sua popularidade.

– Juiz Moro se comporta como um ativista em cumplicidade com a rede Globo e os demais participantes do golpe. Mas eles fizeram cálculos errados. Primeiro, eles acreditavam que Lula entraria em colapso com a sentença da primeira instância em julho do ano passado. O que não aconteceu. Depois correram para a segunda instância do Tribunal Regional Federal 4, dado em janeiro, porque achavam que ali a população desistiria de Lula, e eles estavam errados novamente. Em 5 de abril, Moro violou a lei assinando o mandado de prisão com urgência, sem respeitar os prazos processuais, porque achava que lhe daria um golpe mortal. Mais uma vez ele estava errado porque as pesquisas dizem que não só ele ainda é o favorito, mas há um setor da opinião pública que não é do PT que se sente solidário com um homem vítima de arbitrariedade. Eles o trancaram em violação da lei e agora estão vendo que a prisão é pequena demais para um homem com a dimensão que Lula tem. Hoje todo o país olha para Curitiba. Esta terça-feira será um ato unitário de todas as organizações sindicais, algo que nunca aconteceu, em Curitiba, para exigir a liberdade de Lula. O Partido Lava Jato, liderado por Moro, puniu Lula por condenar também o legado dos governos Lula e Dilma, e saiu pela culatra. Quando as pessoas comparam o que os nossos governos foram e este de Michel Temer não hesitam em dizer que antes era muito melhor, algo que nunca aconteceu, em Curitiba, para exigir a liberdade de Lula.

-É um erro ter escolhido Temer como vice de Dilma?

Vendo o processo eleitoral em 2010 na distância, você deve compreender que situações políticas são o que determinam alianças com partidos que pensam diferente. Você não pode considerar um erro ter escolhido o PMDB (Partido Democrático Brasileiro Movimento, centro-direita) e Michel Temer como um aliado como candidato a vice-presidente Dilma. O que aconteceu depois foi que o PMDB e Temer mudaram de posição quando viram a possibilidade de assumir o poder, e se aliaram ao golpe.

– Como você avalia o empréstimo milionário concedido pelo banco estatal em 2003 para a Globo?

-Foi um empréstimo feito para uma empresa, como muitas outras empresas que obtiveram recursos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), isso não foi um erro. O que eu vejo como um erro foi a publicidade excessiva que o governo trouxe para a Globo e a incapacidade de realizar a regulação da mídia, quando falo de regulação quero dizer, o econômico, não do conteúdo e isso fez uma família , os Marinho (donos da Globo) possuirem toda a comunicação do país, anulando a possibilidade de um contraponto, pois existem outras narrativas e opiniões no universo da comunicação.

– O novo programa do governo contempla uma nova legislação de mídia?

-Sim, esse é um ponto incluído no programa, incluindo o presidente Lula falou em várias ocasiões sobre a reforma dos meios de comunicação e considera essencial para a democracia

-Como avalia a pressão militar na Justiça para impedir a liberdade de Lula?

-Vou avaliar essa pressão, mas posso dizer-lhe que não é da alçada dos militares avaliar a situação política porque o papel dos militares é salvaguardar a soberania nacional, a integridade do nosso território, nosso mar. Eu acho que você tem que se concentrar nisso. Fazer comentários políticos não é o papel que a Constituição reserva para as Forças Armadas.

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